Curiosidades

Muito além dos Aiatolás

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Imagino que todos que gostam de viajar tenham um pipeline onde listam os lugares que mais gostariam de ir. Eu não sou diferente e também tenho o meu, ainda que esteja sempre trocando a ordem das viagens. Os países asiáticos, por exemplo, sempre estiveram entre meus preferidos e tenho especial carinho com vários deles, entre eles o Irã. Sua origem no império persa já bastaria para despertar meu interesse, mas há também o fato de que o nível cultural do seu povo é muito reconhecido, apesar de que no ocidente as informações nem sempre cheguem da forma verdadeira.

E assim programamos viajar ao Irã e conhecer in loco sua história. Fomos com time completo dessa vez, um gaúcho, um mineiro, um carioca metido à paulista e eu. Ajustamos o roteiro com nossa agência, contratamos um guia com uma confortável van e “simbora”. A viagem prometia!

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Tajrish Bazaar, Tehran

O Irã é uma República Teocrática Islâmica com complexo sistema de gestão. O líder supremo é o Aiatolá eleito pela Assembleia dos Peritos composta por 86 clérigos considerados “virtuosos”. Esse modelo existe desde a revolução de 1979 que derrubou o Xá Reza Pahlavi, depois de 37 anos de reinado. Naquela época o Aiatolá Khomeini liderou desde o exílio no Iraque, juntamente com vários mulás xiitas, a revolução que acabou com a longa monarquia no país. Descendente direto de Maomé, Aiatolá significa “sinais de Alá” e é o mais alto cargo da hierarquia xiita, aquele que mais conhecimento detém sobre a religião. Outros países islâmicos xiitas, como o Iraque e Líbano, também tem seu Aiatolá. Países sunitas como a Arábia Saudita, dão outra denominação.

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Saadabad Palace Park, Tehran

Começamos nossa viagem por Tehran, capital do país e sede do governo. Uma capital como várias no continente asiático, inclusive o trânsito que lembra Nova Delhi, Índia. Aliás, batemos de carro já no primeiro dia. Nada grave, normal para eles, para nós nem tanto… Depois de alguma discussão conseguimos seguir e cumprir as visitas do primeiro dia: Saadabad Palace Park, onde está localizado o então palácio do Xá e sua impressionante coleção de carros. Seleh Mosque, uma mesquita só para mulheres e que fotografamos por uma janela, e o Tajrish Bazaar.

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Masoumeh Holy Shrine, Qom

Dois dias depois começamos a rodar o país em direção ao sul. Nossa primeira parada foi em Qom, cidade sagrada do xiismo. Com mais de mais de 1 milhão de habitantes é o maior centro de ensino xiita do mundo, todos os Aiatolás estudaram lá, além de importante local de peregrinação. O principal deles é Masoumeh Holy Shrine, o segundo maior santuário do país. Várias mesquitas com seus esbeltos minaretes estão ao redor de um grande pátio central repleto de peregrinos, clérigos e estudantes com suas roupas amarronzadas e turbantes brancos. Decoradas com figuras geométricas, geralmente douradas, todas tem uma câmara funerária no seu interior. Impossível não sentir uma força espiritual intensa independente de sua crença religiosa.

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Khajoo Bridge, Isfahan

Seguindo viagem, aos poucos fomos nos aproximando do centro do país e chegando a Isfahan. Lá está a Naqsh- e Jahan Square. Espetáculo de praça, nada menos do que isso. Chamada de “A Imagem do Mundo” e inscrita como Patrimônio Mundial da UNESCO em 1979 é, certamente, das mais bonitas em que já estive. Uma grande área verde retangular com um grande lago, tendo ao redor prédios clássicos da arquitetura persa, entre eles a Sheikh Lotfolah Mosque, a impressionante Jameh Mosque e o Pavilhão Ali Capu, de cujo grande balcão o Xá Reza Pahlavi assistia corridas de cavalos. Encontra-se também na praça o arco de entrada do Grand Bazaar. Comprar um atash gardan, sapato feito de tricô, é das melhores formas de lembrar da passagem por Isfahan.

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Naqsh-e Jahan Square, Isfahan

Mas a cidade nos reservava mais do que a praça, nosso amigo mineiro tinha duas surpresas. A primeira delas foi o convite que recebeu de uma iraniana que acabara de fotografar em uma praça, para assistir a um casamento de uma amiga que aconteceria naquela noite. Já pensou ir a um casamento no Irã? Foi um convite para duas pessoas, tínhamos que escolher mais uma e escolhemos o mais velho. Não era eu, infelizmente. Mas podem imaginar o que foi uma festa muçulmana “regada a água”, na qual as mulheres ficavam em uma sala e os homens em outra, com muita música, dança e que se estendeu até o amanhecer. A outra surpresa não poderia ser melhor, a oportunidade de fotografar duas irmãs gêmeas. Marcado o encontro no Bage- e Chehel Sotoun Garden, chegamos quase uma hora antes… As meninas eram estudantes, inteligentes, simpáticas e diria, bonitas. Fotografamos muito, conversamos muito e de repente perguntamos se elas tirariam o véu para fotografar. Acredita que aceitaram?  Isso era totalmente improvável! Quando perguntamos se poderia dar problema, responderam que sim, mas que iriam correr o risco. Khahesh mikonam meninas!

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Isfahan

Próxima parada, Abyaneh, a chamada “red village”. Toda construída em adobe (uma mistura de palha e barro vermelho da região), é um dos mais antigos vilarejos do país. Cerca de 300 pessoas vivem lá, a grande maioria velhos que falam um dialeto persa de mais de 2000 anos. O lugar é sensacional com suas ruas estreitas, telhado de uma casa servindo como terraço de outra e portas baixas com duas aldravas. Uma para os homens e outra para as mulheres, de forma a saber se devem colocar o hijab ou não para abrir a porta.

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Abyaneh Village

Viagem que segue, chegamos a Pasárgada. Aquela cantada em prosa pelo poeta pernambucano Manoel Bandeira: Vou-me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo do rei / Lá tenho a mulher que eu quero / Na cama que escolherei. Hoje um importante sítio arqueológico, a cidade foi a primeira capital do Império Persa construída por Ciro, o Grande. Os persas dominaram a região da Ásia Central e Oriente Médio por 200 anos (530 AC – 330 AC), quando foram derrotados por Alexandre, o Grande da Macedônia. Além das colunatas em ruínas, o principal monumento de Pasárgada é o mausoléu de Ciro, ainda que não existam evidências de que ele realmente está enterrado ali.

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Cyrus’ Tomb, Pasárgada

De Pasárgada para Persépolis, ambas Patrimônio Mundial da UNESCO e uma das antigas capitais do Império Persa. Que sítio arqueológico espetacular! A vista na chegada é impressionante, tem-se impressão de que a cidade ainda está viva. Entramos pelo chamado “Portão de todas as Nações”, onde o rei Xerxes deixou escrito, em três idiomas, que ele havia ordenado a construção. Passo a passo ou através de óculos virtuais, fomos descobrindo cada detalhe da época, cada relevo esculpido em mármore, cada imagem da história milenar do povo persa.

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Persépolis

Para terminar nosso roteiro seguimos viagem para a simpática Shiraz. Conhecida como a “cidade do amor e da literatura”, é uma das mais importantes cidades universitárias do país e berço de poetas como Hafez e Saadi. Considerando que ambos viveram por volta do século XIII, é bonito ver os túmulos que visitamos repletos de iranianos de todas as partes do país em clara demonstração da importância cultural que eles ainda representam. A contribuição literária iraniana para o mundo incluí ainda poetas como Omar Caiam e Ferdusi.

Shiraz é uma cidade leve, com vários jardins floridos, muita gente jovem, alegre e bem diferente das cidades que visitamos anteriormente. Quando caminhávamos por uma praça observamos que vários grupos estavam montando estruturas. Ao perguntarmos a razão daquele trabalho, nos responderam que era para um concurso entre faculdades de arquitetura da região. Nossa conversa não parou aí, outros grupos vieram falar conosco curiosos em saber quem éramos e o que fazíamos no país. Interessante como se manifestaram claramente sobre suas preferências políticas, sem perderem o respeito, especialmente com relação as tradições islâmicas. O certo é que ficou uma sensação de que os jovens vão liderar um movimento inevitável de transformação em curto prazo.

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Architecture Contest, Shiraz

Nosso último dia no Irã foi dedicado a dois locais deslumbrantes. Nasir-ol-Molk Mosque, a chamada “Mesquita Rosa”, constituída de enormes vitrôs coloridos que refletem a luz pelo seu interior. Ela é especialmente linda e fotografável cedo pela manhã. Madrugamos por sugestão do nosso guia, mas foi preciso muito paciência tal a quantidade de pessoas, mas como paciência é a companheira de qualquer fotógrafo… E Shah-e Cheragh Holy Shrine, considerado o terceiro mais importante santuário do país e local do túmulo do Iman Reza, um dos 12 Imans do islamismo xiita. Absolutamente lindo, ele é todo decorado com inúmeras peças espelhadas que refletem as luzes, especialmente, no amanhecer e final do dia.

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Nasir-ol-Molk Mosque, Shiraz

Mas mais uma vez é hora de voltar para casa. Na memória a certeza de que visitamos um país interessante. Foram dias intensos e de muita informação. Difícil resumir uma civilização de mais de 3000 anos, cheia de história, vitórias e derrotas, exemplos e contradições, mas que respeita suas tradições culturais como poucas. Um povo hospitaleiro, jovem de espírito apesar de sua secularidade, orgulhoso de sua etnia persa e que continua reconhecendo seus heróis, suas figuras notáveis e, especialmente, seus poetas. Aliás, se você quer conhecer um povo, pergunte pelos seus poetas.

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Sobre o autor
Engenheiro civil formado pela FURG (1974). Vivi minha vida profissional na área portuária e hoje me dedico a viajar e fotografar! Mais de 100 países visitados e várias exposições fotográficas realizadas. Em busca do próximo destino!
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