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A cidade de mármore e o portal do inferno

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Você, certamente, já ouviu falar no Turcomenistão, antiga república da URSS localizada na Ásia Central e que conseguiu a independência dos soviéticos no início dos anos 1990. Esse exótico país de 6 milhões de habitantes é uma república presidencialista unipartidária e dono da 4ª maior reserva de gás natural do mundo. O que você talvez ainda não saiba é que esse país tem um dos regimes mais autoritários do mundo e que, apesar disso, é muito rico. Os turcomenos, por exemplo, possuem eletricidade, água e gás grátis até 2030. Ou seja, dinheiro não é problema por lá. Apesar desse perfil um tanto estranho, meu parceiro de viagem e eu tínhamos duas boas razões para conhecer o país: era lá que iniciava a viagem de trem pela Rota da Seda que faríamos na sequência, e conhecermos uma cratera conhecida como o “Portal do Inferno”.

Viajamos dois dias antes para a capital Ashgabat, fotografar a tal cratera parecia muito interessante. Chegamos lá tarde da noite e depois de uma longa espera pelo visto de entrada, pegamos um taxi para o hotel. No caminho achamos estranho a cidade parecer toda branca e não haver uma pessoa sequer na rua desde o aeroporto. Depois de uma noite curta, nossa guia contratada – você não pode andar sozinho pela cidade – nos buscou no hotel e começamos nosso tour.

Crédito da imagem: Thierry Rios – Ashgabat

Para nossa surpresa o branco da cidade era da fachada dos prédios que são todas de mármore. Isso mesmo, mármore! Em outras palavras, governo autoritário sim, mas sem os antigos prédios cinzentos da era comunista. Além disso, a limpeza da cidade e a pouquíssima quantidade de pessoas na rua fazia tudo parecer ainda mais branco. Aliás, as poucas pessoas na rua eram do staff de limpeza. Em Ashgabat você não encontra sequer uma bagana de cigarro no chão, pode procurar… E mais, a pedido do atual presidente até os carros são de cor clara, ou seja, a maioria é branca.

Crédito da imagem: Thierry Rios – Ashgabat
Crédito da imagem: Thierry Rios – Ashgabat

Continuamos a caminhada até o Russian Bazaar, onde, pelo menos, havia algumas pessoas trabalhando e fazendo compras. Na entrada um grande cartaz: “Proibido Fotografar!”. Não preciso dizer que tentamos e um cara saiu aos gritos conosco. Tudo bem, vamos em frente… Passamos por algumas estudantes e arrisquei pedir licença para fotografar, deu certo, ufa! No Turcomenistão todas as estudantes colegiais até o curso secundário usam uniforme verde, as universitárias vestem vermelho e na cabeça todas usam um chapéu denominado Tayha. Os homens em geral precisam usar gravata e blazer.

Crédito da imagem: Thierry Rios – Portrait, Ashgabat
Crédito da imagem: Thierry Rios – Ashgabat
Crédito da imagem: Thierry Rios – Ashgabat

Depois de comer um kebab, pegamos um ônibus e fomos conhecer o Independence Park. Lugar mais limpo impossível, jardineiros por todo o lado e mais uma vez proibido fotografar, inclusive os monumentos! Pode? Mas lá aconteceu algo improvável na grande maioria dos países que já conhecemos. Meu amigo esqueceu sua mochila com equipamento fotográfico em um banco e já estávamos esperando um taxi para seguir em frente quando lembrou dela. Começamos a correr em direção à praça quando nossa guia gritou: “nem se preocupem, a mochila vai estar no mesmo lugar, aqui ninguém é louco de roubar alguma coisa”. Não deu outra, lá estava ela nos esperando. Regime autoritário tem disso…

Crédito da imagem: Thierry Rios – Turkmenbashy Ruhy Mosque, Ashgabat
Crédito da imagem: Thierry Rios – Turkmenbashy Ruhy Mosque, Ashgabat

Dia que segue, uma passada pelo Museu Nacional para ver o maior tapete do mundo, outra parada na “fotogênica” Turkmenbashy Ruhy Mosque e para encerrar o dia, uma subida num teleférico para ter uma vista panorâmica da cidade. Na volta pedimos carona e mais uma vez o fantasma do autoritarismo se fez presente. O motorista perguntou o tempo todo para nossa guia o que estávamos fazendo no país, se ela tinha certeza de que não éramos espiões e coisas desse tipo. Bem, era melhor voltar logo para o hotel, essa viagem pode complicar e estava a recém começando…

Crédito da imagem: Thierry Rios – Ashgabat

No dia seguinte era hora de conhecer a famosa Cratera de Darvaz – o “Portal do Inferno”. Pelas imagens que vimos na internet, tínhamos que estar lá ao entardecer. Fotografar com muita luz era certo que pareceria um “foguinho”. Localizada no deserto de Karakum, uma imensa área que ocupa 70% do Turcomenistão, a cratera está literalmente em chamas desde 1971. Ela foi formada depois de um incidente com uma plataforma de captação de oil & gas e que acabou vazando gás metano para toda a região. Darvaz, um pequeno vilarejo com 350 habitantes foi o mais atingido, com várias mortes. Em casos como esse, coloca-se fogo no local de forma a consumir todo o gás, o que deveria levar apenas alguns dias. Mas lá não foi tão fácil como parecia. Ao colocar fogo no local acabaram por criar uma cratera que continua queimando até hoje, 50 anos depois, tamanha a quantidade de gás existente no subsolo.

Crédito da imagem: Thierry Rios – Yurta, Darvaz
Crédito da Imagem: Romildo Bondan – Cratera de Darvaz

Chegar lá foi dureza, 260 km de uma estrada esburacada onde a todo momento camelos selvagens cruzavam a nossa frente com a maior calma. Visual desértico, mas de vez em quando víamos uma yurta, clássica casa nômade turcomena, muito semelhante ao ger da Mongólia e isso tornava a viagem mais interessante. Mais de 4 horas depois chegamos ao nosso destino. Como planejado, era final de tarde e nossa primeira impressão foi de que teríamos alguma coisa para fotografar tão logo anoitecesse. E não deu outra! Escureceu e o visual mudou completamente. Parecia que cada vez saía mais fogo do interior da cratera e ao mesmo tempo exalava um forte cheiro de enxofre. Aos poucos fomos nos aproximando da margem e aí o cenário foi ficando assustador! O cheiro cada vez mais forte, somado ao calor intenso, fazia com que não aguentássemos mais que alguns segundos tão perto. Ficamos lá por mais de 1 hora fotografando aquele contraste imenso da natureza, entre o deserto e uma cratera de fogo com 70m de diâmetro que fazia nos sentirmos pequenos. Uma cratera que era, de fato, o “portal do inferno”, um lugar incrível, no meio do nada, num país pouco conhecido e que, pelo jeito, vai continuar pouco visitado.

Crédito da imagem: Thierry Rios – Cratera de Darvaz
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Sobre o autor
Engenheiro civil formado pela FURG (1974). Vivi minha vida profissional na área portuária e hoje me dedico a viajar e fotografar! Mais de 100 países visitados e várias exposições fotográficas realizadas. Em busca do próximo destino!
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