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Páscoa em Lalibela

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Numa tarde chuvosa do início do ano de 2017 eu estava olhando o Instagram de vários fotógrafos quando me deparei com um convite para viajar à Etiópia. A proposta era ótima, voar para a capital Addis Abeba, conhecer o Vale do Omo e assistir a Páscoa em Lalibela juntamente com outros viajantes. A Etiópia é um país de maioria cristã ortodoxa, dos mais antigos da humanidade. Pensei: essa viagem é a minha cara! A Etiópia, berço do café, é lembrada por várias razões, algumas boas e outras nem tanto. Se por um lado foi lá que descobriram Lucy, o mais antigo fóssil de um ser humano com 3,2 milhões de anos, por outro, foi lá que morreram de fome mais de 400.000 pessoas na metade dos anos 1980. A Etiópia tem também coisas curiosas, a começar pelo calendário Juliano, de acordo com o qual eles estão 7 anos atrás do nosso Gregoriano. E tem mais, o dia começa as 6:00h e não a 0:00h, o ano novo é festejado no dia 11/09 e a língua oficial é o Amárico. Não confundir com Aramáico...

Mas a Etiópia, terra da famosa soberana Rainha de Sabá, tem muito mais coisas importantes na sua história. A principal delas talvez seja que ela é o único país da África que nunca foi colonizado. A Libéria não vale porque foi fundada e colonizada por escravos americanos. Mussolini até andou pela Etiópia durante a 2ª Guerra Mundial, mas foi vergonhosamente corrido em pouco tempo. No lado positivo da balança está Lalibela, uma cidade de 15.000 habitantes situada nas montanhas ao norte do país e que tem um dos maiores tesouros da humanidade: 11 igrejas enterradas e esculpidas a partir de blocos monolíticos de rocha que foram reconhecidos como Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1987.

Crédito da imagem: Thierry Rios – Bet Giyorgis

Construídas no século XII por ordem do rei Gebral Meskel Lalibela, teve como objetivo recriar uma nova Jerusalém, de forma que seus súditos não precisassem peregrinar até a Terra Santa, naquela época dominada pelos árabes. Ao menos essa é uma das versões, a outra diz que o rei teria acordado de um sonho no qual Deus lhe disse para construir as igrejas para poder ser aceito no céu. Mas como sem lendas a história não tem graça, dizem também que os trabalhos levaram apenas 23 anos para serem concluídos porque os anjos trabalhavam a noite enquanto milhares de operários descansavam do dia de trabalho. De qualquer forma, a missão foi cumprida e assim Lalibela acabou tão importante para os etíopes como Meca é para os muçulmanos, Jerusalém para os judeus e o Vaticano para os católicos.

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Bet Giyorgis
Crédito da Imagem: Thierry Rios

Chegamos em Lalibela na 5ª feira, dia que marcava o início das festividades da Fasika, a Páscoa etíope. Começamos por visitar Bet Giyorgis, a igreja dedicada a São Jorge e por mais que soubéssemos que ela era enterrada no solo, a surpresa é enorme ao vermos a grandiosidade da obra. São 15m de altura chão abaixo com uma enorme cruz ortodoxa que ocupa todo o seu teto. Ela é impressionante! Depois de descer cuidadosamente os degraus de pedra que levam à entrada da igreja, deixarmos os tênis no lado de fora, fomos sendo envolvidos pelo visual interno que é tão incrível quanto o externo com suas enormes paredes rochosas. Impossível imaginar como seu interior foi tomando a forma existente hoje, realmente somente com ajuda dos anjos…

Crédito da Imagem: Thierry Rios
Crédito da Imagem: Thierry Rios
Crédito da Imagem: Thierry Rios

Continuamos nossa andança, havia muito que conhecer, muito que aprender, muito que fotografar. Lalibela é um museu a céu aberto de 800 anos e ainda pulsando. Os rituais acontecem exatamente como quando foram criados. Na nossa frente agora a maior das igrejas, a grandiosa Bet Medhane Alem (Casa do Salvador do Mundo), ligada através de um túnel a Bet Maryam (Casa de Maria). Essa é pequena, envolvente, lindamente decorada, é a preferida dos peregrinos e, provavelmente, à primeira a ser construída. A luz natural que entra pelas suas pequenas janelas e frestas é suave, própria do local, não podia ser mais linda para fotografar. Fomos conhecendo uma a uma, Bet Maskal, Bet Mikael, Bet Gabriel Raphael, e outras, nos deixando nos perder em alguns de seus labirintos. Em todas elas o mesmo clima, a mesma atmosfera lúdica, com muitos devotos parecendo embriagados pela fé. Observo-os e tento imaginar o que lhes passa pela cabeça. Alguns nem notam nossa presença. Todos se cobrem com um manto branco de algodão, alguns tem um cajado a mão, alguns deitados sobre tapetes, outros sentados ao chão, muitas vezes encolhidos. Vários leem a Bíblia em voz baixa, há um imenso respeito mútuo no local. Eles são dóceis e já mostram um olhar cansado do longo jejum de produto de origem animal que, ao final, vai alcançar mais de 50 dias. Muitos deles jejuam totalmente nos últimos 3 dias até a madrugada do domingo de Páscoa.

Crédito da Imagem: Thierry Rios
Crédito da Imagem: Thierry Rios
Crédito da Imagem: Thierry Rios

Observo grande movimentação de peregrinos de toda a região chegando à Lalibela em direção às várias igrejas. É a 6ª feira da Paixão, um dia muito especial para os cristãos. Em cada olhar um semblante concentrado, em cada foto a certeza de um registro importante. Pouco a pouco eles vão ocupando as ruas de acesso, há uma intensa expectativa nos caminhantes que vão apurando o passo à medida que chegam perto das igrejas. Ao final da manhã Bet Maryam é a escolhida, é lá que está um altar repleto de “tesouros”. São várias cruzes pesadas, quadros e relíquias da Igreja Ortodoxa Etíope que são atentamente adorados.

Crédito da Imagem: Thierry Rios
Crédito da Imagem: Thierry Rios

Ao final da tarde ouvimos a primeiros cantos, é o início da procissão que acontece ao redor da igreja. Elas acontecem também em Bet Medhane Alem, Bet Golgotha e em outros templos. Os sacerdotes abrem caminho, os devotos começam a se movimentar, a imagem de Maria, o Cordeiro de Deus e outros símbolos são mostrados. Como foi dito pelo nosso guia, Haroldo Castro: “É um momento de explosão de cores! As sombrinhas multicoloridas com suas franjas douradas, guardadas com zelo no interior das igrejas, saem para dar ao cortejo uma atmosfera de festa medieval”. A noite vai se aproximando, velas são acessas e o fogo vai sendo distribuído entre os fiéis. Também acendemos nossas velas, é um momento de fé, difícil de ser expressado em palavras.

Crédito da Imagem: Thierry Rios
Crédito da Imagem: Thierry Rios
Crédito da Imagem: Thierry Rios
Crédito da Imagem: Thierry Rios

Ao longo do sábado os ritos continuam em todas as igrejas, cada vez mais repletas de peregrinos. Em todas elas a mesma atmosfera de fé, o mesmo cheiro de incenso no ar, o mesmo branco predominante nas roupas. Um batismo acontece em Bet Mikael, um devoto lê a Bíblia em voz alta, outros estão em silêncio, uma pessoa é socorrida. Apesar da fraqueza de suas expressões corporais, seus rostos começam a mudar, uma tímida alegria vai tomando conta de seus olhos, se aproxima a grande noite de vigília. É o esforço derradeiro! Os cânticos se espalham por toda Lalibela, algumas procissões ainda acontecem, algumas pessoas ensaiam passos de dança ao compasso do sistro, um pequeno chocalho metálico tipicamente etíope. Estamos circulando por entre os fiéis, cada vez com mais dificuldade, cada vez com mais cuidado, o desafio é registrar sem ser notado, sem tirar a concentração daquelas pessoas que esperam o ano todo por esse momento. Velas são acesas novamente, um calor envolvente toma conta do local, um tambor quase “mudo” é ouvido, certamente se aproxima um momento importante.

Crédito da Imagem: Thierry Rios
Crédito da Imagem: Thierry Rios
Crédito da Imagem: Thierry Rios

Exatamente à meia-noite começa a missa, é a liturgia da Fasika , que dura 3 horas e na qual as pessoas que estão no interior da igreja só podem sair ao seu final. Estamos em Bet Giyorgis, sem dúvidas o símbolo maior de Lalibela. O tempo passa rápido, a qualquer momento acaba o longo jejum. Será hora de comer injera, o prato típico etíope e mais importante da culinária do país. Ele lembra uma panqueca feita à base de farinha e teff, um grão característico da Etiópia. O pão, que acompanha, faz as vezes de talher. Aos poucos os fiéis vão deixando as igrejas, parecem mais aliviados. As ruas e estrada de Lalibela logo estarão novamente cheias, o retorno dos peregrinos às suas casas pode levar até o amanhecer. Domingo será um dia calmo, dia de descanso, de recuperar a energia dispendida. Para nós não será diferente, no final do dia será hora de voltarmos para casa levando na memória cada igreja, cada semblante visto, cada canto entoado. Certamente um pouco de Lalibela vai conosco. Melhor Páscoa não poderia ter sido! 

Amaseguenalo Lalibela! Melkem Fasika a todos!

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Sobre o autor
Engenheiro civil formado pela FURG (1974). Vivi minha vida profissional na área portuária e hoje me dedico a viajar e fotografar! Mais de 100 países visitados e várias exposições fotográficas realizadas. Em busca do próximo destino!
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