Curiosidades

De volta à Katmandu!

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Seis anos depois de ir ao Nepal pela primeira vez em 2009, lá estava eu novamente, mas agora olhando um outro país. Alguns meses antes um terremoto de magnitude 7.8 atingiu grande parte do Nepal, especialmente Katmandu. Foram mais de 4.000 mortos e milhares de feridos. Em um país pobre e com tantos problemas ­ – que depende muito do turismo – ver abalada a frágil arquitetura dos principais pontos turísticos, deu uma tristeza muito grande. Eu tinha aprendido a admirar o Nepal e sua bandeira tão exótica e única no mundo, tanto que quando a agência nos ofereceu algumas opções de escala a caminho do Tibet, é claro que escolhemos Katmandu.

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Katmandu, Nepal
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Katmandu, Nepal
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Katmandu, Nepal

Katmandu é a capital e principal cidade do Nepal. Fica situada num vale de mesmo nome cercado pelos Himalaias. Seu highlight mais importante, sem dúvidas, é o Monte Everest. É de Katmandu que sai a maioria dos grupos que tentam escalar a maior montanha do mundo. Sua população é 80% hinduísta, mas o budismo tem crescido e disputa com o hinduísmo a beleza de seus templos. O país já foi uma monarquia absoluta, mas desde 2007 é uma república representativa secular.

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Himalaias, Nepal

Na primeira ida as terras nepali observamos, já na chegada, o impressionante nível de poluição da cidade. Ficamos rodando uma hora lá em cima até termos condições seguras para aterrisar. Segundo o taxista que mais tarde nos levou no hotel, a poeira vinha do Afeganistão e acabava estacionando no vale. Quase uma hora depois de cruzarmos a cidade e seu trânsito lento, deixamos as mochilas no hotel e esquecemos o cansaço da viagem. Era hora de começar a explorar Katmandu. Não era. Naquele dia estava acontecendo uma série de embates entre a polícia e estudantes e era proibido sair do hotel. Sabe aquela sensação de quem perdeu mais uma vez o “maio de 68”, pois bem, foi assim que me senti. Mas ainda roubei uma foto no portão do hotel…

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Thamel, Katmandu

Ao invés disso, ficamos na nossa “prisão domiciliar” e sem luz. Acontece que o Nepal estava com forte racionamento de energia. Eram 16 horas sem e apenas 8 horas com energia ao longo do dia. Em 2015 a situação melhorou um pouco, mas o terremoto estava ainda trazendo situações desagradáveis.

Estamos no bairro Thamel, no centro da cidade. O local é barulhento, trânsito agitado e ruas estreitas, quase um labirinto. Bem perto dali está a Durbar Square, a Praça do Palácio e suas construções que datam do século XII. Ela é uma das três Praças Reais do vale de Katmandu. Lá estava e não está mais o magnífico templo hindu Kasthamandap, uma das construções de madeira mais antigas do mundo. Uma perda irreparável. Na realidade a praça não se parece com aquela que visitamos anos atrás. Mas ao redor dela a vida segue seu curso com vendedores de rua, aquela cor alaranjada dos colares – aqui laranja é a cor mais quente – vasilhames guardando lugar na fila da água, mulheres lavando roupa, homens carregando pesados fardos nas costas, alguns outros apenas sentados usando seu tradicional chapéu Dhaka Topi. Alguns tem o olhar triste.

Crédito da Imagem: Leonardo Rios – Durbar Square, Katmandu
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Thamel, Katmandu
Crédito de Imagem: Thierry Rios – Durbar Square, Katmandu
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Thamel, Katmandu
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Katmandu, Nepal
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Katmandu, Nepal
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Katmandu, Nepal
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Thamel, Katmandu
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Thamel, Katmandu

Ao sul da Durbar Square se localiza uma rua histórica em Katmandu, a Jhochhen Tole, mais conhecida por Freak Street. Foi nela que nos anos 1960 aconteceu a invasão hippie em Katmandu, atraída pela venda legal de haxixe e outras drogas em lojas administradas pelo governo. A rua foi marcante por mais de 10 anos, sendo conhecida como o nirvana dos hippies. Nos dias de hoje é uma rua de comércio como outra qualquer que atende pelo nome de Old Freak Street. Mas eu precisava conhecer.

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Freak Street, Katmandu

Não tenho boas lembranças dessa região da cidade. Não foi muito longe dali que acabei preso na viagem anterior por fotografar um policial de trânsito em frente ao muro da Embaixada Americana. Não tinha como saber que era um local proibido, ainda que ele tenha gritado para eu não fotografar, mas uma hora depois estava tudo resolvido, deletei a foto. Aqui entre nós, mais uma ou menos uma vez preso não vai mudar minha vontade de fotografar. Mas dessa vez levei azar, de novo…

Apesar da população ser de maioria hinduísta, Katmandu tem vários templos budistas, um dos mais importantes é Swayambhunath, também conhecido como “Templo dos Macacos”, tendo em vista a quantidade de animais que vivem ali. Ele fica no alto de uma montanha, escalar 400 degraus é o esforço a ser feito para ver uma das mais lindas estupas do país, encarar os olhos de Buda na sua frente e de quebra ver a maravilhosa vista de Katmandu. Que sensação boa!

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Swayambhunath Stupa, Katmandu
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Swayambhunath, Katmandu

Mas em termos de estupas, nada se compara com a que está no templo budista de Boudhanath com dois enormes olhos de Buda na sua parte superior. Foi nesse templo que os monges tibetanos se refugiaram quando da invasão chinesa ao Tibet em 1950. O lugar é especial, você sente o clima budista de paz e tranquilidade ao caminhar ao redor do complexo que tem ainda outros templos menores.

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Boudhanath Stupa, Katmandu
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Boudhanath, Katmandu

Mas se você quer experimentar sensações fortes, não deixe de ir ao templo hindu Pashupatinath dedicado ao deus Shiva. Estive lá nas duas passagens pelo Nepal. A entrada no lugar sagrado é proibida, mas você pode caminhar pelo pátio interno e assistir várias cremações que acontecem simultaneamente. O local é quase sinistro, corpos queimando, pessoas chorando, outras rezando, primogênitos dos mortos raspando suas cabeças, gente pescando num riacho de água escura, gurizada catando moedas que são jogadas na água. Olho ao meu redor, outros corpos estão chegando, o odor no ar se torna insuportável. Fotografar é quase dispensável.

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Pashupatinath, Katmandu
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Pashupatinath, Katmandu
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Pashupatinath, Katmandu

Saindo um pouco da região central, Patan e Bhaktapur, ambas antigas capitais do tempo imperial nepalês e hoje fazendo parte da área metropolitana de Katmandu, são imperdíveis. As duas tem sua Durbar Square e juntamente com a de Katmandu formam o conjunto reconhecido pela UNESCO como World Heritage Site. Se por um lado, Patan possui um Royal Palace que data do século XV, cujo piso é ladrilhado com tijolos vermelhos, a medieval Bhaktpur não fica por menos com o magnífico Palace of Fifty-Five Windows construído no século XVI. Infelizmente os pátios, denominados bahals, das construções de ambas as praças sofreram muito com os vários terremotos que atingiram a região ao longo dos anos. Ainda assim você pode explorar os 136 existentes na Patan Durbar Square, em especial Keshave Narayan Chowk, assim como 6 dos 99 pátios que um dia existiram na Bhaktapur Durbar Square.

Crédito da Imagem: Leonardo Rios – Patan Durbar Square, Katmandu
Crédito da Imagem: Leonardo Rios – Bhaktapur Durbar Square, Katmandu
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Bhaktapur, Katmandu
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Bhaktapur, Katmandu
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Bhaktapur, Katmandu

Muito bom também é sair do ambiente das praças e observar como os bairros se movimentam. Colegiais indo para a escola, crianças brincando na rua e se deixando fotografar, senhoras idosas fazendo tricot e homens apoiados sobre os pés daquele jeito que só eles conseguem. Coisas que só vi no Nepal, uma rua inteira coberta de grãos para secarem sob o sol. Se você somar a isso os cheiros e aromas que sentimos a cada passo, a cada quadra, você vai entender o que é estar em Katmandu, o que é estar no Nepal. Sua riqueza histórica, suas praças, templos, estupas e em especial sua gente, acolhedora, mística, extremamente resiliente, que vive num ritmo que só eles conseguem ter.

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Patan, Katmandu
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Patan, Katmandu
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Patan, Katmandu
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Patan, Katmandu
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Thamel, Katmandu

Me lembra um dos ensinamentos de Siddartha Gautama, o Buda, que aliás, nasceu no sul do Nepal em 563 AC: “saber aceitar o que a vida lhe oferece”. Não é fácil, você precisa ter nascido do outro lado do mundo. Ainda temos muito o que aprender por aqui.

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Sobre o autor
Engenheiro civil formado pela FURG (1974). Vivi minha vida profissional na área portuária e hoje me dedico a viajar e fotografar! Mais de 100 países visitados e várias exposições fotográficas realizadas. Em busca do próximo destino!
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