Curiosidades

Férias no Umbigo do Mundo

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Eu não via a hora de viajar com a Sheila. Recém-casados, primeiras férias do trabalho, início do verão, tudo a favor. Meses antes começamos a pesquisar aonde ir e nos deparamos com um sério problema: para viajar para o exterior você tinha que pagar um depósito compulsório de 12 mil “unidades monetárias da época”. Coisa dos governos dos anos 1970… Nós tínhamos 30 mil e queríamos viajar por 3 semanas. Não fechava a conta, o que sobrava não dava para nada. As únicas exceções à regra eram Uruguai, Argentina e Chile. Foi quando um amigo que trabalhava na Varig sugeriu que fossemos para a Ilha de Páscoa. A ilha pertencia ao Chile e com isso escapávamos do depósito. Clássicas perguntas: onde fica, como se chega lá, o que tem para ver? “Compra um livro chamado Rapanui, você vai gostar”, respondeu ele.

Comprado o livro, não precisei sequer chegar ao final. Mais de 800 enormes estátuas esculpidas na pedra e espalhadas pela ilha entre os anos 1250 e 1500 por um povo denominado Rapanui, era mais do que suficiente para despertar nosso interesse. Naquele tempo não tínhamos o hábito de contratar uma agência e assim decidimos ir avançando em direção ao oeste até chegar ao destino final, a pouco conhecida Ilha de Páscoa. Quando se tem 20 e poucos anos, as aventuras batem à sua porta. E assim voamos para Buenos Aires, país meio tenso pelo regime militar, mas a capital sempre bonita. A chegada no aeroporto foi meio estranha, eu levava comigo uma revista chamada Status que foi imediatamente confiscada pelo fiscal da alfândega. Não foi a primeira vez na vida que teria uma revista ou guia de viagem confiscado, mas aquela continuo sem entender.

Buenos Aires era o máximo naquela época. Largas avenidas, lindos parques, bons cafés, músicos de rua, cultura européia. Aos sábados uma ida ao MALBA, aos domingos a imperdível Feira de San Telmo era tudo de bom. Voltamos lá várias vezes, mas em nenhuma foi como essa. A Casa Rosada continua lá, a Plaza de Mayo e a Calle Florida também, assim como a livraria El Ateneo – reconhecida como das mais lindas do mundo – para comprar um livro do fotógrafo Pedro Luís Raota. Mas os cafés estão tristes, não se dança mais tango no El Caminito, o bairro da Recoleta não é mais o mesmo e tampouco se assiste Os Aventureiros ou Fernão Capelo Gaivota na seção das 2h da madrugada na Calle Lavalle, nós assistimos em 1977.

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Parque Palermo, Buenos Aires
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Feira de San Telmo, Buenos Aires
Crédito da Imagem: Thierry Rios – El Caminito, Buenos Aires

Viagem que segue, compramos passagens de trem para Mendoza. Era uma viagem de noite inteira, mas trem é sempre legal. Fomos bem antes do horário para a Estação Ferroviária de Retiro. Sempre achei que era um bom lugar para fotografar, gente atrasada correndo para não perder o trem, uma despedida que outra, tinha tudo para dar certo. Sheila ficou cuidando das malas. Daqui a pouco estou de volta, pensei. Mas não era um bom dia. Um policial se aproximou e perguntou o que eu estava fazendo? O resto da história vocês imaginam. Incrível como essas coisas se repetem… Minutos depois eu estava numa salinha com um oficial na minha frente me fazendo as perguntas de sempre. Por fim, pediu minha câmera e retirou o filme. Não satisfeito, depois de velar, acendeu um fósforo e se foi o “celulose”. Quase uma hora depois eu percorria a estação com um policial de cada lado procurando minha esposa. Eles quiseram se certificar que havia mesmo alguém me esperando. Gente desconfiada naqueles dias…

Estamos no trem, hora de relaxar, a saída foi punk. Uma passada pelo vagão restaurante, uma taça de vinho e cama, quer dizer, beliche. Perto do meio-dia chegamos a Mendoza. Um calor infernal e tudo fechado. Entre 12h e 16h30 você não encontra uma Coca-Cola para comprar, es la siesta. A cidade é bem interessante, terra de bom vinho e, diz minha parceira de viagem, tem um belo Cassino. Eu não pude entrar, usar blazer era obrigatório e assim fiquei esperando na porta. Mas estávamos de passagem e no final da tarde fomos comprar bilhetes para cruzar a Cordilheira dos Andes de ônibus. Tinha tudo para ser dos melhores trechos da viagem, afinal o visual era garantido. Mas foi meio roots. A estrada estreita de chão batido que a todo momento forçava os carros a baterem seus retrovisores e um susto atrás do outro nos precipícios, que fazia os passageiros locais acharem graça, não tirou a beleza da Cordilheira, mas meteu medo. Afinal, eu tinha planos de ainda viajar muito na vida.

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Cordilheira dos Andes, Chile
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Cordilheira dos Andes, Chile

E chegamos a Santiago do Chile, bela cidade, as montanhas ao redor são mágicas. Mas, mais um lugar de passagem, o objetivo aqui era comprar as passagens aéreas para a Ilha de Páscoa. Não era tão fácil como esperávamos, todos os vôos lotados nos próximos 7 dias. Complicou! Enquanto aguardávamos o retorno da Companhia Aérea, tratamos de conhecer a cidade. Palácio de La Moneda, Parque O’Higgins, bairro boêmio de Bellavista e até um cineminha para ver Barry Lyndon do Stanley Kubrick. Eu já era apaixonado por cinema. Mais uns dias e nada. Resolvemos descer até Viña del Mar, não apenas para fazer uma praia, mas para ganhar duas horas no toque de recolher que na capital era a meia-noite. Era um período difícil após o golpe de estado 4 anos antes. Muitos militares na rua, cidade ainda mais cinzenta e eu cuidando para não fotografar nada proibido… Mas os dias foram passando, entre uma praia e uma canção de Julio Iglesias que fazia sucesso no Festival de Viña del Mar, aproveitamos para dar uma esticada até Valparaíso. De volta a Santiago, nos foi oferecido a única possibilidade que conseguiram: viajarmos de 1ª classe no trecho de ida. Meu medo era acostumar mal a companheira, mas era um risco a correr… Rapanui, aqui vamos nós!

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Viña del Mar, Chile

Quase 4.000 km depois estávamos no meio do nada, ou melhor, do Oceano Pacífico. A ilha, de origem vulcânica, é o pedaço de terra mais isolado do mundo. Parece que todo o mundo descobriu a Ilha de Páscoa naquele verão tal a quantidade de gente, a grande maioria jovens, que estava no aeroporto, inclusive o amigo que sugeriu a viagem, o músico Jim Porto. Mundo pequeno… Descolamos de pronto o Residencial Taheta One, não havia hotéis ainda por lá, que na realidade era uma casa de família que alugava quartos para os turistas. Para nós estava ok, ainda mais que só nós estávamos hospedados. O Residencial também oferecia um ótimo desayuno e um Jeep com guia, serviço completo. Hora de conhecer os gigantes de pedra, denominadas moais, conhecer a sua história e fotografar, por supuesto.

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Aeroporto da Ilha de Páscoa
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Jim Porto e Sheila, Ilha de Páscoa

Começamos pelo sul da ilha para conhecer o extinto vulcão Rano Kau. Com 1,6 km de diâmetro, ele é o preferido entre os vulcões, em parte pelo seu jeito exótico – como se tivesse sido mordido na parte do lado de mar – mas principalmente pela mistura de vegetação e água que serve de reservatório para os habitantes da ilha. Não é permitido o acesso à parte inferior da cratera, mas você pode fazer uma bela trilha na parte superior até chegar a um sítio arqueológico muito importante. A sagrada aldeia de Orongo na encosta externa do vulcão. É lá que se realizava anualmente o ritual denominado Tangata Manu. Uma competição que consistia em nadar até a pequena ilha de Motu Nui, apanhar um ovo da ave Manutara e retornar sem quebrá-lo depois de ainda escalar um penhasco quase vertical. O vencedor recebia o título de “homem pássaro” – Tangata Manu – e o direito de governar a ilha por um ano. Na realidade os diversos clãs escolhiam seus representantes, mas o direito de governar ficava mesmo com o chefe do clã vencedor. No local há uma pedra cerimonial do evento com um desenho do homem pássaro.

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Vulcão Rano Kau
Crédito da Imagem: Leonardo Rios – Vulcão Rano Kau
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Aldeia de Orongo
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Aldeia de Orongo
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Motu Nui

Com a chegada do final de tarde, era hora de descobrir a vida noturna da Ilha de Páscoa. Com tanta gurizada por lá, era impossível não estar havendo algum barulho. E de fato havia vários grupos sob aquele divino céu estrelado em conversas animadas, comendo lagosta, bebendo cerveja, geralmente ao redor de alguém tocando violão. Gracias a La Vida da imortal compositora chilena Violeta Parra era a preferida de todos. Foi lá também que escutei pela primeira vez Mercedes Sosa cantar Alfonsina y el Mar, uma melodia triste e uma letra maravilhosa: “Te vas Alfonsina com tu soledad, que poemas nuevos fuiste a buscar…”. Não preciso dizer que foi escolhida a música da viagem.

Sem qualquer pressa, acordamos no dia seguinte para continuar explorando a ilha. Rumamos para o norte, outro vulcão nos esperava. Rano Raraku e sua famosa “fábrica de moais”. Foi de lá que saiu a grande maioria dos moais. Quase a metade dos existentes na ilha ainda se encontram nos arredores do vulcão, alguns ainda nem terminados. Não me perguntem como eles acabaram espalhados por lá, até porque existem várias lendas e teorias. O certo é que não deve ter sido uma tarefa fácil, mas se eles queriam criar um enigma, certamente conseguiram. Dali para a Anakena, uma praia encantadora de água verde cristalina e areia quase branca. O visual é lindo! Lá estão duas ahus, plataformas com moais. Uma chamada Ahu Nau Nau, na qual estão 7 deles, sendo que 4 estão com pokau – diz a lenda que seriam os cabelos compridos enrolados dos chefes dos clãs – e um solitário na Ahu Ature Huki.

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Encosta do vulcão Rano Raraku
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Encosta do vulcão Rano Raraku
Crédito da Imagem: Leonardo Rios – Encosta do vulcão Rano Raraku
Crédito da Imagem: Leonardo Rios – Ahu Nau Nau, Praia de Anakena
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Praia de Anakena

Descendo em direção noroeste chegamos em Ahu Akivi, onde estão os famosos 7 moais que homenageiam, mais uma vez de acordo com a lenda, os primeiros exploradores da ilha. Eles são meus preferidos, em parte pelo ótimo estado de conservação, mas principalmente, porque são os únicos que estão voltados para o mar. Todos os outros moais na ilha estão, curiosamente, de costas. Estudiosos dizem que eles estão virados para a terra para proteger os habitantes da ilha. Não sei se deu certo, uma vez que em determinado momento a ilha acabou desabitada. Possivelmente os “orelhas curtas” vindos da Polinésia ganharam a guerra contra os “orelhas longas” da ilha e voltaram para casa, vai saber…

Crédito da Imagem: Thierry Rios – Os 7 Moais, Ahu Akivi
Crédito da Imagem: Thierry Rios – Os 7 Moais, Ahu Akivi

Já se passaram mais de 40 anos da nossa viagem, como tudo, a ilha mudou muito, mas há quem diga que está ainda mais linda, mais misteriosa. Meu filho, que cresceu olhando para um moai de madeira que eu trouxe de lembrança, é um deles. Esteve lá com a esposa poucos anos atrás e voltou maravilhado e com planos de voltar. A grande atração do momento é o ahu “Los 15”, um espetacular trabalho de recuperação de moais em Ahu Tongariki na parte leste da ilha. Mas existem outros trabalhos acontecendo e, sem dúvidas, a ilha vai continuar atraindo turistas e estudiosos tentando desvendar seus mistérios. O certo é que, enquanto isso, Te Pito O Te Henúa – O Umbigo do Mundo – vai continuar sendo o centro do universo, basta olhar ao seu redor. Não parece que a terra está inundada e é só lá que existe vida?

Crédito da Imagem: Leonardo Rios – Los 15, Ahu Tongariki
Crédito da Imagem: Leonardo Rios – Los 15, Ahu Tongariki
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Sobre o autor
Engenheiro civil formado pela FURG (1974). Vivi minha vida profissional na área portuária e hoje me dedico a viajar e fotografar! Mais de 100 países visitados e várias exposições fotográficas realizadas. Em busca do próximo destino!
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